A vida útil de uma série hoje em dia tem se provado tão volátil quanto as vontades do próprio algoritmo. Para entender como o jogo virou de ponta-cabeça, basta olhar para as movimentações recentes da Netflix. A plataforma não pensou duas vezes antes de puxar a tomada de The Boroughs, a aguardada série dos irmãos Duffer, cancelada sumariamente menos de um mês após a sua estreia. A expectativa em cima do projeto era brutal, considerando que representava o primeiro grande passo de Matt e Ross Duffer fora do universo bilionário de Stranger Things. Só que, no lugar de moleques lidando com o sobrenatural, a dupla apostou em uma ficção científica focada na terceira idade.
O que deu errado tão rápido? Nos bastidores, comenta-se que sci-fi custa caro pra caramba, um investimento de risco que o serviço de streaming preferiu não bancar a longo prazo. Soma-se a isso o fato de que os Duffers estão de malas prontas para levar seus talentos para a Paramount. Como divórcios corporativos costumam deixar sequelas, o projeto não acompanhou os criadores e acabou engavetado.
O Mistério Que Ficou Pelo Caminho
A premissa tinha muito potencial e exalava uma vibe gostosa de Cocoon (1985). A trama nos jogava para as paisagens ensolaradas do deserto do Novo México, direto para “The Boroughs”, uma daquelas comunidades de aposentados idílicas que prometem os anos dourados perfeitos. Mas para o novato e enlutado Sam Cooper — vivido pelo sempre excelente Alfred Molina —, o lugar estava mais para uma prisão. Tudo desanda quando ele esbarra em algo monstruoso rondando as ruas milimetricamente podadas do condomínio durante a noite.
Como era de se esperar, as autoridades o taxam de velho confuso. Cooper acaba sendo obrigado a juntar uma trupe totalmente improvável para ir a fundo no mistério: uma ex-jornalista de língua afiada, um cara na pegada espiritual, um empresário musical cínico e um médico brilhante que está nas últimas. A série reuniu um elenco de peso, com Geena Davis, Alfre Woodard, Denis O’Hare, Clarke Peters e Bill Pullman. Essa galera subestimada precisava desvendar os podres da comunidade antes que o tempo deles literalmente acabasse. Infelizmente, o relógio correu mais rápido na vida real.
O Outro Lado da Moeda: O Fenômeno Independente
Curiosamente, enquanto a gigante do streaming passa a foice em superproduções caríssimas de seus antigos garotos de ouro, ela abriga em seu catálogo um monstro que joga por regras completamente alheias a Hollywood. The Chosen – Os Escolhidos é um ponto fora da curva absurdo. Se você ainda não viu, a série acompanha a trajetória de Jesus Cristo na Galileia do século I, mas com uma roupagem diferente: o foco está na perspectiva da galera que andava com ele, desde o recrutamento dos primeiros discípulos até os milagres e os perrengues do início de seu ministério nas duas primeiras temporadas.
O detalhe é que a série foi erguida no peito e na raça pelos próprios fãs. Utilizando a plataforma Angel Studios, o projeto esmagou recordes e se tornou o maior sucesso de financiamento coletivo da história do audiovisual. Os números oficiais dão conta de que mais de 580 milhões de pessoas em 197 países já assistiram à produção. É um nível de alcance que muita série de estúdio grande sonha em ter.
E a Quarta Temporada?
As três primeiras temporadas estão lá na Netflix, mas também pipocam no Globoplay, na grade do SBT e até de graça no site oficial de The Chosen. A ironia de toda essa história é que, enquanto o público de The Boroughs ficou órfão da noite para o dia, a legião de fãs de The Chosen vive uma ansiedade diferente: quando a quarta temporada finalmente vai dar as caras na Netflix?
A real é que não há qualquer previsão para isso acontecer, nem lá e nem na concorrência. Dallas Jenkins, o criador da série, resolveu ditar o próprio ritmo da distribuição. Tendo em vista o peso da quarta temporada — que mergulha em momentos bem dramáticos e densos da Bíblia, englobando a morte de João Batista e a ressurreição de Lázaro —, Jenkins decidiu que os episódios iniciais precisavam estrear nas telonas. E foi o que aconteceu, com exibições especiais rolando nos cinemas a partir de 21 de março para garantir uma imersão que o sofá de casa às vezes não entrega. A plataforma de streaming que espere. Pelo visto, quem realmente tem o poder de barganha nessa indústria nem sempre é quem assina os cheques mais altos.

