A primavera costuma trazer uma eletricidade diferente para a comunidade das artes cênicas, uma urgência por criar o novo. Se você olhar para o que está rolando na Universidade de Iowa, por exemplo, vai sentir exatamente essa vibração. A iniciativa #NewWorkCity, capitaneada pelo departamento #PerformingArtsAtIowa, é um retrato cru dessa energia, dando espaço para que os alunos de pós-graduação mostrem a que vieram e testem os limites do que a dança pode ser hoje.
Eles não estão ali para jogar na segurança. O Dance Graduate Concert desta temporada é uma verdadeira prova de fogo sensorial. Quem senta na plateia já é avisado de cara: prepare-se para luzes estroboscópicas, neblina, aquele cheiro peculiar de refletor superaquecido, estouro repentino de balões e bailarinos que simplesmente rompem a quarta parede e invadem o espaço do público. É uma experiência que exige presença absoluta. O programa em si é um mosaico dessas mentes inquietas. Bea Beaman traz “Hearken”, uma obra moldada diretamente com o elenco; Hutch Hagendorf apresenta “Life’s Souvenirs”, bebendo da inspiração dos seus próprios bailarinos; e Yoshito Sakuraba marca presença com “She is Placed, Then Continues”. Depois de um respiro no intervalo, o experimentalismo volta com “Still, again” de Olivia Farmerie, o colaborativo “ShadowWerk” de Rachel Carpenter e “Mea Culpa”, coreografado por Rosie DeAngelo. É a celebração de um frescor criativo que só o ambiente universitário consegue bancar, e quem quiser entender a fundo a cabeça desses artistas acaba tendo que mergulhar no programa virtual da apresentação.
Mas enquanto a nova geração experimenta com a quebra de barreiras físicas e o choque sensorial, lá no alto escalão do ballet clássico profissional, a subversão vem de um olhar obstinado para o passado. Tiler Peck tem pensado obsessivamente em George Balanchine ultimamente. E não é pra menos. Ela é bailarina do New York City Ballet há 22 anos — a mesma casa que Balanchine fundou. Ela nunca chegou a conhecê-lo em vida, claro, mas o conhece no próprio corpo, naquela memória muscular que só quem respira as obras de um gênio consegue entender. E a verdade é que ninguém construía balés como ele. Especialmente aqueles projetos faraônicos, com fileiras e mais fileiras de bailarinos rasgando o palco, girando e chutando até alcançar um clímax sincronizado e quase hipnótico.
Essa habilidade quase assustadora do Balanchine de pegar o caos puro e transformar num mecanismo de relógio suíço, fazendo com que assistir a um balé se torne uma experiência de sair do próprio corpo, é o tipo de coisa que intimida qualquer um. Talvez seja por isso que criar um balé clássico em grande escala na companhia hoje pareça um desafio que a maioria prefere evitar. Por que ninguém mais tenta? Por que os coreógrafos atuais fugiram das superproduções clássicas?
São essas as perguntas que não saem da cabeça da Peck, uma bailarina de aura perpetuamente solar, mas com opiniões bem afiadas sobre o atual estado do ballet. E quando ela recebeu sua segunda comissão para coreografar no City Ballet, essa tempestade de questionamentos finalmente ganhou forma. Ela começou a dissecar o que tanto a fascinava nas grandes obras de Balanchine, os motivos que a faziam amar tanto dançar quanto assistir àquelas peças. A resposta sempre esbarrava na estrutura, na arquitetura dos movimentos. Tem um quê de nostalgia, de um jeito quase antiquado e magistral de se pensar o palco, como se vê em “Symphony in C”.
A resposta de Peck para a apatia do ballet contemporâneo é uma só: encham o palco.
Para sua nova obra, a “Symphonie Espagnole”, que estreia nesta quinta-feira com os cinco movimentos da música de Édouard Lalo, Peck resolveu subir a régua sem medo. Ela montou um elenco de 40 bailarinos. É uma ambição que o City Ballet não via há muito tempo em trabalhos inéditos. Só para dar uma dimensão: quando Alexei Ratmansky remontou o último ato do clássico oitocentista “Paquita” para 2025, ele usou 16 bailarinos, o que já soava grandioso.
O que incomoda Peck nos coreógrafos mais novos é que, mesmo quando colocam muita gente em cena, a coisa vira uma certa bagunça difusa, com todo mundo no palco fazendo coisas diferentes ao mesmo tempo. Com sua estreia, a intenção dela é brutalmente clara: dar a cada um dos seus 40 bailarinos uma experiência de dança completa, resgatando aquela grandiosidade uníssona que faz a plateia prender a respiração. No fim das contas, seja estourando balões no meio do público em Iowa ou coordenando um exército afinado de sapatilhas em Nova York, o objetivo pulsante é o mesmo — fazer a dança tomar conta de todo o espaço que ela tem direito.

